– por do sol

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Quando eu tinha cinco anos eu soube que eu não era igual aos outros garotos. Eu não era igual ao meu irmão e primos. Eu percebi olhando o céu num pôr-do-sol que havia uma diferença em mim. Desde então eu fui analisando essa diferença. Eu observava o comportamento do meu pai e irmão e me incomodava que eu não conseguia ser como eles, por mais que eu tentasse. Quando era eu que fazia, me parecia tão falso, tão ensaiado, tão debilitado…

Mesmo que todos ao redor aplaudissem meu pequeno teatro. Desse dia em diante, uma máscara se formou em meu rosto. Aquele pôr-do-sol me deu clareza, conhecimento, lágrimas, confusão, liberdade.

Quando eu tinha cinco anos, eu vi que garotos eram mais bonitos que garotas. Eu me lembro do susto que tomei ao notar isso. Eu sempre fui uma criança tímida e solitária. Brincava sozinho. Nunca me interessei por jogar futebol com meu irmão, primos e amigos. Eu sempre fui o que ficava no canto esperando a hora de jantar. Na escola, eu preferia colher ramos e flores no mato atrás da escola do que ir atrás da bola. Eu preferia a leitura do que os esportes. Deus, como é difícil falar disso… Essa descoberta me assustou muito, apesar de não ter ideia do tamanho dela na época. Meu maior medo era a imposição de que garotos que gostam de garotos deviam se vestir como mulher – o que hoje parece um medo bobo, obviamente. Não lembro como eu sabia disso, mas sabia. Eu tinha medo dos rótulos sem nem conhecê-los. Eu sempre gostei das minhas ‘roupas de menino’. Não me entendam mal.

A partir daí, meu medo foi aumentando. Eu ouvia meu pai dizer que jamais iria querer uma ‘bicha’ na família. Ouvia minha mãe disseminar o nojo e repulsa dela pelo que eu tinha certeza que eu era. Meus ouvidos doíam e a máscara no meu rosto se fixava mais firme usando meu medo como cola.  Eu ouvia com medo e dor coisas absurdas que ela desejava aos meus iguais. Deviam não existir. Aberrações doentes. Condenados ao inferno. Será que ela nunca sentiu minha dor muda vibrando no meu olhar arisco e desconfiado? Eu tinha nove anos apenas. Nunca foi minha culpa. Foi aquele pôr-do-sol que revelou quem eu era. Eu acho que se eu não fosse assim minha família seria mais unida. Droga, eu era uma criança!

Eu sempre procurei na religião uma forma de escapar daquele pôr-do-sol. Eu sempre migrei em busca de uma cura. Eu encontrei Deus. Ele me disse que o pôr-do-sol jamais me abandonaria. Eu sou o que devia ser.  Eu neguei, gritei, esperneei e tudo mais. Caramba, quantas orações eu fiz antes de me aceitar? Quantas lágrimas eu derramei num piso de banheiro enquanto orava e soluçava baixinho ajoelhado pedindo um escape?

Eu lembro que eu tentei me convencer que garotas e garotos eram interessantes na mesma medida, tudo apenas para amenizar o meu medo e insegurança. As expectativas dos meus pais sobre mim enquanto meu irmão trazia as primeiras namoradas para conhecê-los me esmagavam dia após dia. Aos quinze anos me apaixonei pelo meu primeiro garoto. Me apaixonei sozinho, e sozinho permaneci. Guardei tudo só pra mim por falta de com quem falar. Você consegue imaginar sentimentos tão grandes e complexos na cabeça de um garoto de quinze anos que não tem ninguém com quem conversar? Enquanto meu irmão ouvia conselhos amorosos dos meus pais, eu ouvia minha tristeza em meus fones de ouvido sozinho no quarto. Enquanto meus pais comemoravam o fato de meu irmão planejar o casamento dele, eu abria o chuveiro para abafar meu choro pelo fim do meu segundo namoro. Eu tive que lutar, entender e aprender a me relacionar sem nenhuma ajuda deles.

Aos vinte anos comecei a ser taxado de estranho, fechado e frio por que nunca levei uma garota para meus pais conhecerem. Por que a cada dia que passava, um abismo se abria mais e mais entre a gente. Eles de um lado da mesa, eu de outro, e entre nós anos de distância emocional. Mas o tempo revela tudo. Foi cada vez mais difícil manter o peso da minha máscara e carregar sozinho aquele pôr-do-sol nas costas. Aceitar a rejeição das pessoas que me colocaram no mundo era impossível. Por que eles me rejeitariam por algo que eu não podia mudar? Eu iria mesmo para o inferno por simplesmente… Amar? Eu seria menos filho por desenhar e ler ao invés de brincar com uma bola?

Mãe, pai… Vocês já leram os comentários de ódio na Internet contra pessoas como eu? Vocês já viram o que eles desejam para mim, seu filho? Vocês já não acham que eu mereço sentir mais amor e menos repulsa ou que vocês não têm vergonha de mim? Vocês vão sentir vergonha de uma criança que se descobriu num pôr-do-sol? Por eu sempre ter me considerado diferente, já não é hora de vocês me abraçarem e dizer ‘DROGA, FODA-SE! É A MESMA COISA’?

Já é hora de vocês me conhecerem, de me dizerem que tudo bem, de me ajudarem a quebrar essa máscara. Mãe, pai, eu só quero ser quem eu sou, só quero que vocês sorriam para mim, que me abracem e me embalem, me digam que ainda sou o bebê de vocês… Mãe, pai, vocês sempre disseram que Deus nos diz para amarmos os outros como a nós mesmos. Queria poder falar isso para você, mãe, mas você tem estado tão longe de mim depois de descobrir que seu garoto gosta de garotos… Eu só queria entrar em casa e deixar essa máscara no lixo, e que a senhora pare de fingir que eu ainda a uso. Por que eu cansei de chorar todo domingo de manhã, cansei de trocar de assuntos com medo, cansei de chorar escondido, de ter medo de ser a vergonha da família por algo que nem vergonha eu devia ter.

Mãe, aos meus vinte e três anos eu te mostrei o meu pôr-do-sol. Tão vívido e belo quanto a primeira vez que o vi. O pôr-do-sol sempre me atraiu. Sempre teve as cores mais belas, sempre a melhor iluminação para mim, sempre me refletiu… Mas você desprezou as cores das quais sou feito. Vinte e três anos depois de você me ter, você enfim me conheceu. Vinte e três anos eu me escondi de você. Vinte e três anos de um pôr-do-sol constante. Vinte e três anos esperando.

Mãe, pai… Não dói contemplar meu pôr-do-sol. Abram seus olhos. Eu sou tão belo quanto deveria ser. Não há motivos para se envergonhar. Não ignorem enquanto ainda reproduzo luz. Mãe, pai… Por favor, não tenham medo das minhas cores.

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11 comentários sobre “– por do sol

  1. Quando abandonarmos nossas “convicções” surdas, nossa “lealdade cega” às regras de comportamento anacrônicas e preconceituosas que servem apenas para controlar, então talvez consigamos olhar o outro e finalmente enxergarmos que ali também está um ser humano…

    • É precisamente esse apego ao que exclui e separa que faz com que tenhamos tantos problemas por falta de empatia. “Se não é meu problema, eu não me importo”. Apenas a empatia e o respeito podem mudar comportamentos preconceituosos.

  2. Esse é um tipo de situação muito delicado. Estudo psicologia e estou presenciando algo muito parecido, nos atendimentos do meu estágio. A pressão social é o que mais pode atrapalhar nesse caso, pois reflete diretamente na questão familiar. A possibilidade de poder expressar e ser quem você realmente é, se equivale à uma enorme rocha retirada de cima da pessoa.

    • Exatamente, Alan. Eu escrevi esse texto há quase 3 anos atrás e nunca havia publicado ainda por um medo irracional do que poderiam pensar de mim. Hoje minha relação com meus pais está mais fixa e me sinto mais seguro, mais eu mesmo e muito, mas muito mais leve.

  3. Olivia Alves disse:

    Belíssimo texto, sensibilidade e coragem transbordam dele. Eu acredito que cada passo dado, por mais doloroso que seja, está nos levando adiante, pra um lugar em que seremos nós mesmos sem máscaras e medos.

    • Esse pensamento é que me faz tomar decisões que me libertam, Olivia – por mais que algumas decisões sejam difíceis de tomar ou me deixem com medo. Obrigado pelo comentário! 🙂

  4. Alexandre, sinceramente eu chorei ao ler seu texto.
    Muito profundo e bonito.
    Obrigado por compartilhar. Eu e você tivemos experiências parecidas com relação a nossa sexualidade. No meu blog tem um texto chamado Stop Kissing Boys in the Street e é justamente sobre isso.

    Parabéns!

    • Hey, Flávio! É muito bom ver que vc leu e gostou de algum texto meu! Eu acompanho teu blog – meu namorado me mostrou e eu passei a amar. E sim, eu já li o texto que vc citou. Obrigado 😀

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