– paranoia

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Os olhos fervilham, é como se centenas de pequenas bolhas de refrigerante estivessem espumando em meus olhos. Eu sinto um arrepio frio subir pelos meus braços, cruzando meu pescoço e atingindo com força meus olhos. Fecho-os automaticamente para não deixar minhas lágrimas verem a saída. Sinto vultos frustrarem meus pensamentos que não encontram lógica no que começo a pensar. Eu fico tão envergonhado de me sentir assim tão fraco. De não conseguir barrar esse sentimento tão ruim que me pisa e me faz sentir só.

No meio de um turbilhão de coisas que se passa em minha mente fragilizada, tudo que escuto é a pior voz que reverbera sobre todo o barulho mental. Escuto minha própria voz repetindo palavras de dor e humilhação. Você não é uma boa pessoa. Você não faz nada certo. Você ferra com toda e qualquer relação que tenha. As pessoas são melhores sem você. Quanto tempo até o próximo amigo cansar de você? Quanto tempo até ele ir embora? Você não merece ninguém.

Essa tempestade de pensamentos é difícil de encarar. Custa um esforço muito, muito grande para não me quebrar diante dela. Não me desfazer. Custa um esforço muito grande para eu me convencer que ela está mentindo. Dentro de mim, eu me escondo de mim mesmo. Dentro de mim eu fujo e tento me proteger assustado contra esse sentimento que me ameaça e aterroriza me perseguindo no interior com risadas sádicas do meu medo. Eu sinto dentro de mim meu maior medo se tornando palpável e abraçando-me enquanto diminuo de tamanho perante a enormidade dele. O vazio me encontra e eu me vejo sem defesas. Apenas um ponto insignificante sem rumo em meio a bagunça que minha vida é.

Os pensamentos me encontram de forma obscura e eu amaldiçoo a mim mesmo mil vezes por não conseguir manter a fortaleza que sou a maioria dos dias. A voz amaldiçoa todas as minhas tentativas de voltar à superfície e recobrar a luz que perdi de vista. A voz repete que não sou digno de amor, que vivo de mentiras e ilusões, que o dia se foi e meu lugar é ali: sozinho com meu próprio silêncio.

Eu odeio ver meu coração nesse estado. Odeio sentir a sanidade faltar aos meus pensamentos. Odeio perder a lógica e não saber onde a perdi. Odeio sentir meus olhos perdidos e ardendo de tanto chorar. Odeio me importar tanto. Odeio ser tão paranóico e achar que todos um dia vão me deixar. A paranoia embaralha meus caminhos, minhas certezas, minhas incertezas e sorri pra mim me desafiando a tomar decisões que sou incapaz.

A paranoia me vira de ponta cabeça e me joga numa realidade onde encontro lógicas inversas, onde caio cada vez mais fundo e tudo se torna aquilo que não é verdade. A paranoia transforma tudo e todos em possíveis feridas que mais cedo ou mais tarde irei adquirir. Ela me questiona a lealdade de todos ao meu redor e principalmente o que sou para essas pessoas. A paranoia é cruel, sarcástica e sádica. Mente para mim e ri das minhas incertezas.

A paranóia só se sente satisfeita depois que coleta minhas lágrimas. Várias delas. A paranóia só se vai depois de eu me sentir esgotado, depois de secar meu reservatório, depois que vê que não consigo mais pensar em alguma situação em que me sinta péssimo. Só depois disso, ela me dá um tapinha de leve no ombro e diz para eu descansar. Só depois de eu soluçar e implorar um tempo, ela me deixa sozinho. Só então, eu posso respirar de novo, só então posso pensar com clareza mais uma vez.

Só então posso me reerguer e tentar não pensar nos vestígios sujos que a paranoia deixou para trás como um lembrete de que esteve ali e que eu, com cuidado, tenho que limpar.

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