– virgem

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Hora: 16:55 – Ouvindo: Sleeping At Last – I’m Gonna Be

Um dia você me disse que eu te deixava sem palavras. Logo você que escreve livros. E isso me pareceu de uma estranheza imensa, por que eu − também escritor − raramente me sinto sem palavras. Mas então, decidi te escrever num texto, quis te transformar em letras, sílabas, orações e complementos verbais. Quis te formar em sujeito e predicado, e qual a minha surpresa ao perceber que toda frase que eu iniciava parecia tola e infantil e eu não conseguia chegar a uma extensão correta daquilo que você é para mim.

Há dias eu comecei esse texto mentalmente, buscando palavras rebuscadas, frases complexas e metáforas intensas que pudessem por você no papel da forma como te vejo e meu espanto tomava proporções maiores por, pela primeira vez na minha vida, as palavras não fazerem sentido de nenhuma forma que eu as encaixava. Você − sempre revolto, independente, agitado e teimoso − não me deixava te por numa simples folha de papel. Você se mostra maior do que eu posso em vão tentar descrever. E eu me sinto sem palavras, impotente, virgem de novo.

Não é fácil deixar um escritor sem palavras. Não é fácil deixar alguém acostumado a lidar com sentimentos intensos sem saber como expor tudo que sente de uma forma entendível. Eu mal consigo formar esse texto. Eu não sei como você mergulhou tão fundo no meu peito, nem como você consegue todos os dias ir um pouco mais fundo dentro das minhas sombras, plantando flores, arrancando ervas daninhas e acalmando a tempestade que ruge dentro dos meus mares. Apenas um toque seu, apenas uma palavra sua e minhas nuvens se vão sem resistir. Você é um mago, de verdade.

Não sei se foi nosso Vênus em Leão, se foi tua intensa Lua em Escorpião ou a minha ardente Lua em Áries. Na verdade, a única constelação que me interessa é aquela que teus pequenos sinais formam em tuas costas. Não sei se foi teu abraço ou meu beijo, não sei se foi teu dengo ou minha timidez. Não sei quais as palavras certas para transcrever. Meu Deus, tudo que sei é que de alguma forma, fomos enredados um ao outro e eu ainda posso sentir tua mão apertando a minha e como me sinto seguro contigo.

Eu juro que eu queria ter o poder de te tomar nos braços e te carregar, apesar do seu medo bobo de altura, até às nuvens. Eu te enroscaria numa densa nuvem em tons de rosa, dourado, violeta e carmim durante um pôr-do-sol − o qual eu esqueceria de observar por ter olhos apenas para teu sorriso fácil. Ficaríamos abraçados fitando o interior dos olhos um do outro e essa seria uma cena que Afrodite aplaudiria de pé e com lágrimas nos olhos. Seríamos eternizados numa pintura renascentista que faria Michelangelo ou Da Vinci sentirem inveja, e deuses sejam bons, eu observaria essa pintura todos os dias.

Há dias eu formo esse texto e ele ainda parece curto demais para o espaço que você toma em mim. Você incrivelmente fez um escritor achar que não é capaz de escrever algo da forma que sente.

Meu bem, como você faz isso?

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