– o pássaro

sad bird

Hora: 16:17 – Ouvindo: Ed Sheeran – One

Fechado. Trincado. Arranhado. Assustado. Marcado. Sentimentos embaralhados e mergulhados em lágrimas ruivas. Lavados e ainda manchados com a tenebrosa sujeira de um golpe cruel. Brilho esvanecido. Sorriso vencido. Olhares medidos. Coração entorpecido. Tuas asas presas por ti com medo de um novo voo em direção ao desconhecido ao qual tu voou e caiu, um voo do qual te derrubaram. Tua penugem tão bela, tão rica em cores, tão maravilhosa… Agora encharcada e oscilante entre cores de cinza e negro.

Teus olhos cheios de dúvidas, não encontrados no meio da multidão de incertezas, no meio da confusão de dores. Te refugias nas grutas da tristeza, nos bosques das sombras de fumaça, nos montes feitos de gritos gélidos e sufocados onde nada floresce. Te refugias no rugido do vento oco onde nada pode ser encontrado, onde aqueles que te buscam se perdem, se juntam e vagam. Te escondes de novos voos. Te escondes do renascimento, dos astros, da claridade. Prefere as nuvens densas de teu ser, cor de chumbo, sabor de lágrima sofrida e torcida, cheiro de segurança e ânsia.

A chuva te assusta. Os trovões te marcaram. Os relâmpagos te cegaram. A mesma chuva impiedosa que marca tantos de nós. Para alguns ela chega serena, calma, bela. Chega aos poucos, fazendo-se notar, dando oportunidades de se preparar. Trazendo esperança e sorrisos discretos aos lábios. Porém, às vezes chega bruta, feroz, veloz, atroz. Chega sem avisar, impondo-se e contrapondo-se. Alaga, ocupa, destrói. A chuva ribomba, tamborila, vicia. A chuva faz perder-se os sentidos, a lógica, a razão. Leva o orgulho, leva a vergonha, o preconceito. Às vezes cura, outras fere. Pesa, mede. Perfuma, fede. A chuva revigora, a chuva evapora. Em todos os casos, a chuva vem e passa. Sim, passa. Mas em todos os casos a chuva deixa marcas. Onde quer que se olhe, lá estão as marcas. Numa roupa, numa cama, num presente. Numa música, numa fotografia. Numa carta, numa conversa, num perfume. A chuva vai impregnar tudo ao seu redor. A chuva sempre vai deixar essas marcas.

Em teu caso, a chuva não foi gentil. Não foi sutil. Foi vil. Derrubou teus pilares, jardins, teu altar de sacrifícios. A chuva te derrubou e te trouxe pra baixo. A chuva passou e o resto ficou para te assustar, afugentar e corroer. Em pé, tu observas o que deixou de restar. Observa o cenário confuso, os pedaços e os cacos. Observa enquanto vapores cruéis te envolvem, enquanto tudo se deteriora ante as marcas do temporal. Enquanto os trovões e relâmpagos ainda soam em tua cabeça. Enquanto o som da chuva ainda molha teu peito. A chuva passou, se foi, partiu. As nuvens chegaram e caíram. O teu mundo se perde aos poucos…

Olhe essas asas semi-afundadas e as direciona para casa. Você ainda tem tempo. Deixa o sol aparecer e secar essas poças imundas de chuva. Deixa-te voar. Ergue tua voz e faz dela tua foz. Você tem uma chance. Não te pintes de preto. Olhe tua costa onde a maré está recuando. Tua praia ainda é branca e o mar ainda vem e vai. O chão pode estalar enquanto tu caminhas, mas isso pode mudar. É só um lembrete para manter teus olhos abertos. Teu navio suportou essa tempestade. Ele te levará em segurança para casa. Acredita em mim.  Vire as costas para a chuva de medo e esqueça esses trovões. Alce seu voo sem pudor. Abra seus olhos em ardor. Reaja com vigor.

Queime em amor.

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