– velho escudo

man keeping walking on

Hora: 16:01 – Ouvindo: Vertical Horizon – Miracle

Eu não estou bem certo do que estou sentindo. Raiva? Sim. Decepção? Sem dúvidas. Mas… Tem algo mais aqui e não saber o que é está me martirizando. Tem algo mais aqui dentro que não conheço, algo mais que está me perturbando e que não consigo definir de onde vem. Fui ferido. O golpe veio de um canto que eu não esperava, um canto onde eu me considerava seguro e protegido. Veio de um escudo que sempre achei ser meu, veio de olhos que eu achei que eram meus.

Eu fiquei atordoado quando vi o sangue vermelho e fumegante jorrar de meu peito, meus dedos enrijeceram-se perante o ato e meus olhos derreteram de incredulidade. Arfei em busca de minhas defesas, olhei ao redor buscando minhas barricadas e minhas pontes levadiças. Eu quis trancar aquilo, quis parar, quis estancar e evitar que meu sangue se fosse. Mas o ataque era interno e eu estava desprotegido, a mercê daquela hemorragia maligna que tanto torturou meu peito. Haviam oito meses que eu tinha erguido minhas torres. Oito meses que minhas barreiras não eram derrubadas. Oito meses longe do mundo cinza, longe das chuvas que corriam de meus olhos. Oito meses que eu vencia… Eu nem mesmo sei o que falar diante de tanta destruição, de tanto… De tanto nada…

Eu permaneci lá enquanto minha fortaleza se rompia e corrompia. Permaneci deitado no chão negro enquanto o monstro tomava de conta de mim, enquanto eu era anestesiado, enquanto meu rio secava. Eu vi os destroços negros de algo que foi belo um dia, que foi magnífico e me fez sentir tão bem. Quando isso acontece, me pergunto: Como relacionamentos podem ser destruídos tão facilmente? Somos nós tão estúpidos que não vemos que estamos destruindo, explodindo, derrubando, queimando e quebrando tudo que nos faz felizes? Não vemos que o que jogamos fora é exatamente o que nos faz feliz? Quero dizer, droga! Somos assim tão burros que não percebemos isso?

O gesso e as cinzas me cobriram, a fumaça cauterizou meus olhos, a chuva me cortou, me lavou e consolou. Meu ferimento se calou. Expulsei o demônio da lama, do frio e do escuro. Meus relâmpagos acenderam e em minha mente um temporal aconteceu. Fui condenado ao inferno. Fui trazido de volta. Fui feito de arrogância e orgulho. Restaurei meu reino a força. Trouxe o contra-ataque. Pedra por pedra lembrei-me de como demorou e o quanto custou para eu construir aquilo tudo e enfim percebi que meu reino era mais do que aquele ataque. Não era meu destino final, eu precisava deixar aquele ataque ir embora. Precisava me libertar e não estar mais nu, mais sujo, mais desprotegido. Eu precisava fazer meus olhos brilharem de novo. Restaurar suas cores e cuidar mais de minha armadura e manto. Eu precisava abrir meus calabouços e deixar meus construtores se revelarem mais uma vez. O ataque veio. Mas ele só veio uma vez e eu o superei no final. Retirei aquele escudo de meu quarto particular. Joguei-o num baú velho e esquecido.

O sentimento entorpecido continua aqui sem que eu consiga o identificar, mas talvez ele seja apenas uma certeza, um novo conselho de meu peito. Talvez esse sentimento seja apenas minhas sentinelas em alerta. Sinto que ele me diz para estar pronto para um próximo ataque talvez, para não confiar em velhos olhos e sorrisos tortos. Para não confiar em palavras de mel acompanhadas de ações cortantes, para não confiar em quem usa espelhos como defesas. De tudo, sobrou uma certeza: Depois de tanta guerra, de tanta chuva e destroços, eu continuarei em pé. Por todas as bandeiras brancas que já cansei de levantar, por todas as vezes que me quebrei e me afoguei e por todas as cicatrizes que tenho, eu colocarei um pé a frente do outro e eu continuarei andando por fazendas e campos. Irei continuar com força e ânimo. Posso chorar, posso ter feridas, posso ter ervas secas e marrons crescendo em um buraco onde um dia houve um grande, belo e lustroso escudo verde, mas eu prometo: eu não irei parar de andar.

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