– novo mundo

paisagem-grandes

Hora: 18:16 – Ouvindo: Imagine Dragons – It’s Time

Dois anos. Quanto eu achava que dois anos me mudariam? No momento não relembro e de verdade, não importa tanto. Não importa o quanto eu julguei esses dois anos antes de vivê-los, pois qualquer estimativa que tive de mudança estava mais do que errada. A mudança pela qual passei foi inexpressivelmente maior do que qualquer expectativa que imaginei ou planejei.

Qualquer pensamento que tive antes desses dois anos foi inteiramente enterrado e superado pelo peso da realidade da mudança. Todos os aspectos de minha vida passaram pela inveitável onda que varreu e transformou minha vida. Mal consigo descrever tamanha realidade. Em momentos de contemplação do que me tornei, paro e medito sobre o relevo de minha vida e personalidade me perguntando: Onde estão aquelas montanhas imponentes de dúvidas que cobriam meu sul? Onde estão aqueles grandes e profundos lagos de tristeza que ficavam no centro de minha planície nos quais eu costumava me afogar nos meus dias de fumaça e destroços? Para onde foram os meus bosques de baixa auto-estima e as florestas escuras de meus medos? Como meus mares de insegurança secaram em meu norte? Como meus vulcões de orgulho pararam de entrar em erupção? Onde estão minhas pesadas nuvens de solidão que tanta companhia me fizeram? Onde minhas cachoeiras de lágrimas que despencavam nos abismos de minha alma e inundavam-me de escuridão? E as minhas crateras fumegantes de ódio?… Tudo se foi. Tudo mudou. Uma nova paisagem sem tons de cinza me encara de volta do topo de montanhas que refletem meu novo, tenro e plácido eu. Um eu que carrega sem esforço um sorriso cálido nos lábios. Uma paisagem com cores mais vivas ocupa meus olhos e me enche o coração com a esperança que faz colidir com meu peito.

Os habitantes dessa paisagem também são novos. Minha família habita o local mais belo, luminoso, confortável e adorável em todo meu novo mundo. Resgatei meu pai das cavernas onde eu o havia posto, tirei meu irmão dos campos secos e infertéis onde o isolei e derrubei os penhascos que haviam entre eu e minha mãe. Como eu pude não os amar durante tanto tempo? Minhas lágrimas crescem e explodem enquanto os olho e os admiro enquanto agradeço por eles fazerem parte do cenário de todo meu novo mundo. Minha mente agora forte traz novos habitantes que ocupam grandes quartos e salas no prédio do meu coração. O amor deles é minha salvação; a salvação que eu achei estar perdida, o amor que descobri no escorrer do tempo.

Por dois anos eu andei por aí. Construindo, reformando, restaurando e desconstruindo. Tapando buracos, ajeitando brechas e consertando rachaduras na vida de pessoas que eu nunca havia visto antes. Andei plantando, cultivando , colhendo e saboreando os frutos que vinham da vida dessas pessoas. Andei falando, advertindo, aconselhando, rindo, chorando. A magia da vida me alimentava como também embebedava. Mas agora no fim, quando já construí prédios, cultivei colheitas e falei palavras além da conta, percebo que o maior trabalho, conserto, colheita e discurso foi feito exatamente dentro de mim. Minha maior criação em dois anos foi eu mesmo. Quantos rostos vi? Quando olhos explorei? Quanto sorrisos fiz surgir? Quantas casas entrei? Tudo é tão incontável para mim… Tudo tão sublime ao olhar para trás. Uma multidão me encara dos espelhos de minha mente e como eu gostaria de abraçar todos aqueles que colonizaram um espaço em minha vida e me ajudaram a construir esse novo mundo. Me pergunto quantas dessas pessoas irei rever um dia, quantas delas poderei abraçar novamente e dizer obrigado pela parcela de felicidade que elas me deixaram ter enquanto estávamos perto. Mil rostos vi, mil olhos encarei, mil sorrisos, abraços, cores, palavras e lágrimas… Lágrimas que parecem não serem levadas pela gravidade. Nada parece ser o mesmo em mim. Nada parece velho e usado.

Amigos que a distância leva embora e que meu coração pede para olhar mais uma vez e ver a luz e cor dos olhos ao se estreitar num sorriso caloroso. Tantos novos propósitos e idéias. Novo comportamento e filosofia de vida. Novo olhar e jeito. Não posso nomear todos os meus pedreiros, carpinteiros, lenhadores, ferreiros, mineradores, caçadores, ourives, construtores, arquitetos, engenheiros e mestres de obras. São tantos e tão inestimáveis que não me arrisco e nomear e acabar esquecendo um. Entretanto, seus rostos e palavras estão guardados em minha arca interior, no local mais belo que pude criar. Seus rostos enfeitam esse cômodo, seus sorrisos sempre a me confortar e suas obras em minha paisagem assinadas com seus nomes, cada uma sendo uma homenagem para eles e uma lição para mim. Todos tão especiais e marcantes. No meio desse redemoinho de rostos, sorrisos e olhos, no centro de tudo um rosto permanece em foco… Um rosto cujo os olhos são buracos negros e abismos marítimos onde ainda me perco. Um rosto mais especial ainda.

Antes eu me sentia assustado, isolado e renegado. Hoje me pergunto o que deixo aqui depois de dois anos. Uma voz nova  sussurra para mim que ajudei a construir mundos de outras pessoas. Um grande ciclo em minha vida se encerra e isso me assusta um pouco ainda, mesmo que dentro uma certeza de que tudo ficará bem retumbe em meu peito. Sei que é hora de caminhar e explorar esse novo mundo e conhecê-lo melhor. De começar a deixar pegadas nas areias de minhas praias e seguir sem olhar para trás a estrada que construí. De iniciar um novo ciclo. Agora que meu tempo se esgota deixo motivos e emoções para eu também ser lembrado pelos que ficam, para esquecerem qualquer coisa que fiz de errado, para não sentirem ressentimento ou mágoa. Hoje eu sei que alguém veio e me resgatou de mim mesmo. Hoje sei que quando, por acaso, algum vento de vazio me encontrar, posso olhar para dentro e manter todos esses rostos e sorrisos em minha memória e esquecer o resto, e assim expulsar o deserto do vazio de perto de mim.

Hoje eu sei que tenho luz. Que tenho gratidão, esperança e fé. Hoje eu sei que tenho amor. Que tenho um mundo novo. Hoje eu sei que tenho uma nova vida.

Oh, Deus, quão grato sou por esses dois anos!

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