– sobre ti

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Hora: 17:33 – Ouvindo: Daughtry – Over You

Em todos os olhos enxergo algo. Em todas as palavras enxergo mais do que meus ouvidos ouvem. Em certos olhos vejo águas, vejo nuvens, árvores ou fogo. Vejo céus, montanhas, ventos ou chuvas, mas nos teus vejo densas névoas da manhã. Já vi labirintos que me confundiram, mas os teus são névoas que me confundem e me deixam sem rumo. Abismos que não vejo o fim, mares não navegados, lugares não encontrados, cômodos não visitados.

Sinto-me um estranho e invasor por macular teu interior tão indiscretamente, por perscrutar teus olhos em busca de algo que me mostre quem tu é ou mais de ti, por desvendar sem tua permissão teus mistérios instigantes. Sinto-me além de tudo um explorador em busca de algo que nem mesmo sei o que é, procurando nos cantos de tua alma e nos desvios de tua mente algo que me dirá: “É isso. A busca chegou ao fim”. Já fiz isso antes com outras pessoas e sempre pareceu tão fácil, mas contigo sou provado a cada novo olhar, sou desafiado a cada vez que nossos olhos se cruzam e teus olhos às vezes parecem implorar que eu descubra-te, que eu revele-te, que eu entenda-te por completo e talvez explique a ti mesmo o que vi sobre ti.

Teus olhos machucam-me e me fazem queimar minha mente que se enche de dilemas. Fazem-me querer analisar-te de perto, fazer milhões de perguntas a fim de te conhecer, não o superficial, mas o que se esconde sob tua última camada, no teu mais profundo interior. O teu ser me chama a atenção. O teu silêncio explode meus pensamentos, as tuas duplas respostas derrubam-me as certezas e o teu medo de eu te conhecer mais me abala. Tenho receio de te afugentar, de não ser cuidadoso e como uma criatura tímida e arisca, tu correr e se afastar indo embora. Os teus olhos emanam algo que só consigo comparar com o sentimento que a Lua me traz, algo entre… Compreensão e mistério. Quase me hipnotiza se vasculho teus olhos com os meus. Ao passo que busco o teu-eu em ti, sinto-me sendo analisado por ti ao mesmo tempo e aterrorizo-me por sentir que tu consegue ir além de mim, por sentir que minhas paredes não são tão resistentes quanto as tuas ou menos complexas. Eu sinceramente fico sem bússolas ao analisar teus olhos cheios de névoas claras, mas intransponíveis até certo ponto. Deles jorram cachoeiras mansas e invernos, montanhas imponentes e silenciosas, vastos universos povoados por pensamentos que eu gostaria de conhecer e talvez ainda pensamentos confusos e que nem tu mesmo entendes. Os teus olhos são a porta para tua alma, mas só vejo o que tu não consegue medir. Os teus olhos são espelhos, são fendas, são armas. Teus olhos são luas e ao te encarar sinto medo de me ver refletido no interior silencioso deles. Isso me assusta e me instiga mais ainda ao mesmo tempo.

A tua voz é como o som de flautas e harpas, assim a classifico. Calma, serena, medida e pesada. Um tom certo, um tom neutro e que relaxa, como a brisa leve apenas capaz de mover as folhas das árvores com calma e fazer pequenas ondas na superfície de um lago. Como o som da noite chegando, o som da penumbra de um quarto confortável, o som do vento leve sobre a relva de um campo, o som do bater de asas; é o som de uma nuvem pesada de chuva ao se arrastar pelo céu, é o som do inverno ao cobrir florestas e cabanas com a neve. Ressoa cheia de paz e acalento, como o fogo a crepitar a madeira. É cheia de acordes e notas caprichosas, tal como uma sinfonia simples, porém admirável.  Acumulada de tons tênues e gentis, as palavras saem por uma linha fina e vermelha, quase como um corte de bisturi que resultou num traço tenro de sangue feito sobre o papel branco de tua pele.

A despeito de todo o seu ser calmo e sereno, tens momentos humanos do que parece ser ardente ira e nesses momentos vejo saírem gotas de magma de teus olhos e fumaça negra de tua boca. Mas quase sempre vejo sombra de mistérios em todo o teu redor conforme se aproxima de mim, emergindo de qualquer lugar liberto de limites e me pergunto: “Tu se sentes sozinho, como eu às vezes me sinto?” A gravidade parece não te conter, parece que flutuas perdido ao caminhar. Sinto que em momentos tu parece não ver o que te pertence: todos esses atributos inegáveis. Tu traz contigo uma penumbra isoladora e macia, como se tu carregasse contigo qualquer peso impactante, uma luz como de um lustre belo.

Teu ser me lembra as coisas mais tranqüilas, parecendo que tu tem todas elas contigo… Lagos, folhas secas, ventos, lágrimas e uma luz cálida, apesar de tua superfície ser tão normal e imperfeita. Se eu pudesse te mostraria tudo isso como realmente é, sem precisar de comparações ou exemplos, te mostraria com cores e perfeição, com precisão e com clareza, uma visão perfeita de detalhes. Tu veria tudo o que possui cada vez que olhasse. Tudo estaria refletido em um espelho completamente liso e perfeito e aí tu poderia se analisar e visitar os quartos escuros de teus olhos que não consegui ir ainda.

Depois de tudo, eu só esperaria que não tivesse que explicar mais nada, que essas palavras fossem o bastante e que meu silêncio fosse mais legível do que minha voz.

Pensando bem, eu gostaria de falar isso tudo um dia frente a frente contigo, sentados em um banco velho de um parque qualquer durante um outono frio. As folhas vermelhas e amarelas estariam caindo inevitavelmente e eu não teria o medo de olhar diretamente nos teus olhos sem esperar ser atingido por uma chuva de flechas que sairiam dos teus a perfurar os meus.

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