– novas folhas

Hora: 18:40 – Ouvindo: Jake Rau – His Love

Permanecer firme. Necessito disso mais do que qualquer outra coisa. Eu prometi a mim mesmo que uma nova fase de minha vida iria se iniciar, e já que ela já se iniciou, eu não posso trazer os ossos e sombras do passado para o novo-eu. Assim como árvores que criam novas folhas e se desvencilham das velhas e secas, eu vou seguindo em frente diante das estações. Às vezes parece-me penoso me desfazer de algumas folhas, me parece doloroso deixar que elas caiam sendo que as mantive tanto tempo comigo numa estação que antigamente achei que duraria sem fim.

Mas a estação mudou e como todas as árvores eu senti a necessidade de mudar também. Vi que eu não devia mais reter as velhas folhas e que necessitava desesperadamente  das novas. Em certos momentos a minha vontade é secar, definhar e me esquecer  de todas as folhas que ainda devo fazer nascer, querendo me livrar da responsabilidade e só deixar o inverno de sentimentos perpetuar em meu interior. Contanto, o sol brilha me dizendo que devo crescer e permenecer constante, firmar raízes e continuar assim. Correndo o risco, tomando essa chance e fazer-me mudar definitivamente.

Em alguns instantes tudo parece tão longe, tão visionário e tão irreal que meus galhos são abalados por um vento furioso, frio e poluído que ameaça levar minhas verdes folhas e me derrubar, arrancar minhas raízes. Tremo freneticamente ao pensar em tal distância e em como poderei talvez passar por dolorosos invernos até lá. Olho ao redor e me imagino num terreno vazio e desprovido de relva, me deixando isolado no meio de um grande nada não me dando expectativa de obter o necessário para sobreviver aos inúmeros ataques que me atingirão; sinto meu interior oco nesses momentos, sinto que o frio do inverno vai me transformar numa pedra de gelo e me preservar para seu próprio orgulho, para me exibir derrotado por minhas próprias fraquezas, um monumento em honra aos defeitos, máculas e vergonha, cheio de culpa e horror. Sinto que sou um árvore podre, torta, feia e velha cujos galhos pendem apenas por teimosia do destino, cujas todas as folhas estão caindo e cujo todo o corpo merece ser cortado ou marcado.

Porém, meus velhos olhos de árvore que já viu o que não devia ver, sentiu o que não devia sentir e viveu o que não deveria ter vivido, enxergam no meio de tantas confusões e sombras que tentam me envolver, as novas folhas verdejantes e viçosas. Folhas cheias de esperança que carregam um novo cheiro suave e um novo futuro para tal velha árvore. Folhas que lutam bravamente para crescer e eu também me esforço para florescer de vez e não mais secar, não mais apodrecer, para gerar frutos nunca visto e que nem eu sabia que podia gerar. As novas folhas balançam com o vento furioso, mas são firmes e não se deixam vencer tão fácil. Elas me incentivam a lutar contra o vazio, contra o frio e contra as marcas do passado. Eu juro que irei lutar. E no fim, uma surpresa: alguém me rega. Vejo um alguém cuidando de mim, me cercando, me preservando. Um alguém que se importa com uma árvore feia, velha e podre e quase incapaz como eu. O jardineiro acredita em mim e me consola, não me deixa morrer.

Minhas novas folhas por vezes são atingidas, mas perseveram. Eu irei lutar, eu irei brotar. Eu afastarei o inverno de sentimentos de dentro de mim de uma vez por todas.

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